Terça-feira, 22 de Abril de 2008
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Escrito por Liz às 00:58 0 comentários
Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
Avós que tricotam (Conto)
Não se lembrava desde quando havia começado a conversar com a avó, mas havia sido um pouco depois de sua mãe ir trabalhar fora de casa. Sua avó materna era parecida com sua mãe, mas mais suave, se é que se podia descrever uma pessoa com essa palavra. Enquanto falava, Clarisse observava a velhinha. Media a anciã, captava seus detalhes. E continuava falando. A avó a ouvia e tricotava.
Clarisse contava seu dia na escola, suas descobertas e suas dificuldades de relacionamento com os colegas. É claro que evitava assuntos ou detalhes que pudessem ofender o pudor da velhinha que havia crescido num tempo muito mais contido para as moças. Não podia querer que a avó compreendesse essa coisa de ‘ficar’. Mas isso não era um grande problema, já que não precisava mentir para a avó: não ‘ficava’ com ninguém, embora tivesse muita vontade. Não que fosse feia, era só estranha. E era sobre isso que conversava com a avó.
Clarisse não sabia se relacionar com as pessoas da sua idade, achava todos muito bobos e irritantes. Talvez por isso fosse tão fácil estar com a avó. Enquanto Clarisse falava, a avó tricotava. Às vezes era muito difícil ir para a escola, um sacrifício que só fazia para não decepcionar seus pais. Gostava de algumas matérias, de alguns professores e de alguns amigos, mas preferia não ter que passar por certos constrangimentos como chamadas orais, brincadeiras dos garotos da sala de aula e risinhos da maioria das meninas que ‘ficavam’ com esses mesmos garotos.
Sabia que aquela mania de olhar dentro dos olhos dos outros não era exatamente uma coisa comum. Assustava as pessoas. Mas Clarisse só sabia fazer assim. Precisava observar seu interlocutor com atenção e fixava o olhar de modo a perturbá-lo. Não era como uma caricatura ou algo exagerado, mas depois de alguns minutos de conversa, qualquer pessoa sentia-se invadida por aquele olhar.
Alguns garotos maldosos a chamavam de Medusa e Clarisse odiava, numa reação bastante saudável, ser comparada a um monstro mitológico. Sua avó, no entanto, não se incomodava com seu olhar penetrante e desbravador. Podia passar horas olhando fixamente a avó que, de seu lado, tricotava e tricotava, sem perder nenhum ponto.
Quando mais tarde sua mãe chegou e lhe perguntou como estava lidando com o fato de ela trabalhar fora e, portanto, não estar tão presente, Clarisse quis evitar a conversa. Mas a mãe insistiu. Afinal, disse ela, fazia um mês que Clarisse passava as tardes sozinha em casa e como depois de alguns dias parou de reclamar da solidão a mãe relaxou, mas agora queria saber como estavam as coisas, o que Clarisse ficava fazendo. Então Clarisse contou que conversava com a avó. “Clarisse, minha filha, sua avó faleceu há mais de 10 anos!”, disse a mãe espantada. Clarisse tomou um susto, mas disfarçou e logo emendou “É brincadeira”. E continuou a conversar com a avó todas as tardes, observando-a em todos os detalhes, detalhes tão comuns quanto podem ser os detalhes de uma senhora idosa que tricota: cabelos brancos, corpo curvado, ombros cansados, sorriso manso, olhos lacrimejantes, meias de lã, chinelos de pano, dobras, rugas e pontos de tricô. Algo, no entanto, estava diferente. Havia no olhar da avó uma compaixão sombria; a suavidade havia abandonado aquela figura passiva e aparentemente dócil. Os olhos da velha traziam um brilho malicioso e dissimulado.
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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Escrito por Liz às 22:51 0 comentários Marcadores Contos
Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
Ela 'tava' é no inferno...
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Strange Behavior br>
Comportamento Estranho br>
br>
This is the story, br>
about two people br>
in love. br> br>
Esta é a história br>
sobre duas pessoas br>
apaixonadas br> br>
We were happily married, br>
Until he waved a gun at me. br>
I said whats with all your strange behavior. br> br>
Nós éramos felizes e casados br>
Até que ele apontou uma arma para mim br>
Eu disse 'o que é esse comprtamento estranho?' br> br>
He said I love you babay br>
But you got a big insurance policy br>
And I really Need the paper br> br>
Ele disse 'Eu te amo, querida br>
Mas você tem um grande seguro de vida br>
E eu realmentePreciso da grana' br>
Strange behavior by the sea. br>
He'd be here br>
But he's deceased br>
Strange behavior br> br>
Estranho comportamento no mar br>
Ele deveria estar aqui br>
Mas ele faleceu br>
Estranho comportamento br> br>
I had a big insurance policy br>
And he had a big insurance policy, br>
Too! br> br>
Eu tinha um grande seguro de vida br>
E ele tinha um grande seguro de vida, br>
Também! br> br>
I said baby if you get a job br>
You would not have to shoot me now. br>
He said Oh My God Your such a hata. br>
But then he chickened out, br>
I took the gun and shot him down br>
Cuz I really need the papa. br> br>
Eu disse, 'querido se você arranjar um emprego br>
Você não precisaria atirar em mim agora' br>
Ele disse, 'Oh meu Deus como você é odiosa' br>
Mas ele se acovardou br>
Eu peguei a arma e atirei nele br>
Porque eu realmente preciso da grana br> br>
Strange behavior by the sea. br>
He'd be here br>
But he's deceased br>
Strange behavior br> br>
Estranho comportamento no mar br>
Ele deveria estar aqui br>
Mas ele faleceu br>
Estranho comportamento br> br>
What was I to do br>
Sometimes its me or you br>
I swear that I loved you baby br>
All I have to say so br>
I say so br>
cuz Im rich now br> br>
O que eu podia fazer? br>
às vezes, sou eu ou você br>
E juro que te amei querido br>
E tudo o que tenho a dizer br>
Eu digo br>
Pois agora sou rica br> br>
Drove his body to the sea br>
Kissed him on his cold cheek br>
I said I guess I'll see you later br>
And the people all asking me br>
I say he'd be here but he deceased br> br>
Levei o corpo dele até o mar br>
Beijei seu rosto frio br>
Eu disse 'Acho que te vejo depois' br>
E todas as pessoas estão me perguntando br>
Eu digo que ele deveria estar aqui mas faleceu br> br>
Then I go and spend my papa-a br> br>
E então vou gastar minha grana br> br>
He'd be here br>
He'd be here br>
he's dead! br> br>
Ele deveria estar aqui br>
Ele deveria estar aqui br>
Ele morreu! br> br>
A letra é da música "Strange behavior" da Macy Gray e a tradução é minha e livre. O curioso é que ela começa dizendo que é uma música sobre duas pessoas apaixonadas. A protagonista 'tava é no inferno'. br> br>
Em tempo: Adoro a voz e as músicas da Macy Gray.
Escrito por Liz às 23:11 0 comentários Marcadores Música, Vida Bizarra, What?
Segunda-feira, 14 de Abril de 2008
O Nome da Rosa - Filme
Um filme que assisti neste final de semana foi "O Nome da Rosa". Eu havia assistido há anos, provavelmente no final da década de 80 (o filme é de 1986). Lí o livro há alguns anos e fiquei com vontade de ver novamente o filme, mas não tive oportunidade. Até esse final de semana.Baseado no livro de mesmo nome do escritor italiano Umberto Eco, "O Nome da Rosa" é um filme que mistura mistério, ação e história. Não que se trate de uma história verídica mas, como habitual, Eco contextualiza sua narrativa de tal modo que, junto à aventura, é possível aprender um pouco da realidade histórica, filosófica e religiosa da época em questão.
Escrito por Liz às 22:28 1 comentários Marcadores Cinema, História, Literatura
Quarta-feira, 9 de Abril de 2008
Juno - Trilha Sonora
Assim como o filme, a trilha pretende ser ‘cool’. É recheada de artistas alternativos, com ênfase na estranha e interessante Kimya Dawnson, integrande dos Moldy Peaches. Kimya tem seis faixas na trilha, sendo algumas apenas interlúdios, sem contar a faixa do Moldy Peaches. São suas melodias que ajudam a compor a personalidade de Juno, maravilhosamente interpretada por Ellen Page - que também figura na trilha, num dueto com Michael Cera, seu par romântico (?) no filme, cantando a fofa “Anyone Else But You” do Moldy Peaches.
Além de Kimya, estão no repertório The Kinks, Mott The Hoople, Belle & Sebastian, Velvet Underground e até Buddy Holly, com “Dearest”. “All I Want Is You”, que abre o álbum, dá a tônica do que o ouvinte encontra no álbum e - para quem assistiu ao filme - é inevitável que venham à mente as cenas iniciais, em desenho animado, de Juno andando até a loja de conveniência para comprar mais um teste de gravidez.
No geral o álbum é focado num folk pop feito para jovens alternativos, com uma dose de sarcasmo que é a cara do filme: algo infantil, mas longe de ser bobo, como revelam as faixas “Tire Swing” e “Loose Lips”. Mas a trilha também tem distorção na versão do Sonic Youth para “Superstar”, originalmente gravada pelo Carpenters. Cat Power cantando “Sea of Love” é outro ponto alto da trilha.
Escrito por Liz às 20:50 0 comentários Marcadores Música
A capa estragada...

"pedimos gentilmente que encaminhe sua reclamação para nosso Central de Relacionamento, através do e-mail: capitao@submarino.com.br"
Pois é, esse e-mail também não recebe mensagens, elas retornam com erro. Lá fui eu de novo para o formulário... Tudo o que eu queria era fazer uma reclamação. Nem quero trocar o livro pois até que a troca aconteça eu já terminei de ler.
O Submarino está afundando no meu conceito.
Bom, a parte boa da história são os livros que comprei:
• Duquesa De Langeais, A
Escrito por Liz às 20:27 0 comentários Marcadores Desabafo, Vida Bizarra
Sexta-feira, 4 de Abril de 2008
Ferragus - Honoré de Balzac
A Comédia Humana, chamada de 'o monumento literário' do escritor francês por reunir 89 de seus títulos, entre contos e romaces, é um retrato vivo da sociedade francesa do século XIX. Ela é dividida em três partes: "Estudos de Costumes", "Estudos Analíticos" e "Estudos Filosóficos". A mais longa, com 66 títulos é "Estudos de Costumes", da qual faz parte o presente livro, "Ferragus".Esse é também, como uma história dentro de outra história, o primeiro livro de uma trilogia que fala de situações diversas mas traz, como pano de fundo, a História dos Treze, uma sociedade secreta e misteriosa que possui muito poder. Para além da suposta fantasia que tal sociedade possa suscitar, Balzac foca sua escrita na realística descrição que faz dos costumes e das personagens - sempre com ênfase nas figuras femininas.
Escrito por Liz às 21:11 0 comentários Marcadores Literatura, Resenha
Filme com trilha sonora de Mike Patton
A trilha sonora é, como seu autor, esquisita. Mas muito interessante. A maioria das 15 faixas é instrumental e traz orquestrações. Há um tema que se reedita através da trilha e leva a crer ser o tema do filme - é a música que toca no trailer. Entre as faixas com voz e letra, tem até uma em italiano, "Il Cupo Dolore".
Uma curiosidade: o curta tem 25 minutos de duração. A trilha sonora, 35... Veja o trailer de "A Perfect Place":
Escrito por Liz às 21:10 0 comentários Marcadores Cinema, Curta, Música
Relatório de erros

Escrito por Liz às 21:07 0 comentários Marcadores Desabafo, Vida Bizarra, What?
Terça-feira, 1 de Abril de 2008
Uma paródia do trailer do filme Juno
Esse é um vídeo que faz uma paródia com o filme Juno. É um trailer. O filme ganhou o nome de "Jewno". Ah, repare na canção ao fundo: "All the young jews..." hahaha ótimo!
Escrito por Liz às 23:53 0 comentários Marcadores Cinema, Curta, Vida Bizarra, What?
Prefiro o Digg...
Outro dia meu irmão me falou que o Del.icio.us era muito bom para armazenar endereços favoritos. Nunca tinha tido a curiosidade de entrar. O excesso de 'coisas que você precisa saber/conhecer' da internet me cansam.
Enfim, lá fui eu navegar pelo Del.icio.us. Ô troço chato! Achei feio e um tanto confuso. É possível que eu esteja ficando velha pra isso, mas sei lá, simplesmente não me agradou. Rede por rede, sou mais o Digg. Sim, eu notei que são coisas diferentes. Acontece que o Digg me parece mais útil.
O Digg combina rede social, feed e um blog. Está no ar desde 2004, segundo me informa a Wikipedia. Ele me parece mais interessante por listar as notícias 'diggadas', para quem quer ficar por dentro do que está acontecendo e saber o que estão falando. Para quem tem preguiça, ou não tem tempo de procurar as coisas, é uma boa opção. Você vê a lista que traz no topo as notícias/artigos/textos/etc. mais votadas e sabe o que mais se falou na internet no dia, mês ou ano.
Agora mesmo, na lista de entretenimento, na subcategoria música, o Radiohead ocupava as duas primeiras posições. Pelo jeito se falou bastante de Radiohead hoje. Prova de que eles não precisam mesmo de gravadora para lançar um álbum. Mas isso já é outro assunto.
No fundo, no fundo, o que me irrita um pouco é a moda das coisas. De repente é moda e se você não souber, não tiver ou não se inscrever, está por fora. Há alguns anos - 2004 - era o mesmo com o Orkut. Depois vieram MySpace, Facebook e agora essas malditas redes sociais pipocam pela net. É um tal de rede social disso e daquilo que já estou sem paciência para tanta rede social. Até porque muitas vezes sou um tanto anti-social mesmo...
Escrito por Liz às 23:36 0 comentários Marcadores Internet, Vida Bizarra
Stephen Malkmus - Real Emotional Thrash
Os fãs de Pavement sempre se agitam quando Stephen Malkmus anuncia um novo álbum. Isso porque a banda deixou admiradores espalhados por todos os cantos do planeta. É verdade que Malkmus andou anunciando uma volta do Pavement, mas de real e concreto, por enquanto, o que temos é "Real Emotional Thrash", 4º álbum solo do guitarrista.À frente do Pavement, o músico consolidou um estilo alternativo de rock nos anos 90 e em sua carreira solo adicionou à sua música diversos elementos, como funk e pop, sem perder a personalidade - nem os fãs. Acompanhado do Jicks, banda formada por Joanna Bolme (baixo), Mike Clark (teclado, guitarra) e Janet Weiss (baterista), Stephen Malkmus traz à tona toda sua vontade de tocar guitarra e fazer barulho no novo álbum.
Embora traga todos os elementos indie 'do momento', o que viabiliza ter suas canções na programação das rádios, "Real Emotional Thrash" não é exatamente um álbum radiofônico. A faixa-título, por exemplo, traz 10 minutos de duração e outras 5 faixas ultrapassam os 5 minutos, com solos longos, interlúdios e viagens que aproximam o som de Malkmus do rock progressivo - como acontece em "Hopscotch Willie".
Escrito por Liz às 23:00 0 comentários Marcadores Música, Resenha
Sábado, 29 de Março de 2008
South Park de graça e na hora que você quiser
Escrito por Liz às 00:09 0 comentários Marcadores Desenhos, TV, What?
The Question is: What is Mahna Mahna?
Sem grandes comentários, só assiste...
Escrito por Liz às 00:07 0 comentários Marcadores What?
Terça-feira, 25 de Março de 2008
Juno (filme)
Nesse final de semana assisti "Juno". O filme é ótimo. Embora com um tema pra lá de batido - gravidez na adolescência - não assume um discurso enfadonho ou pedante. Nem boboca. O filme consegue falar sério de uma forma fácil e até engraçada.
Ellen Page, no papel principal, encanta como uma adolescente espontânea e inteligente apesar de bastante imatura, a ponto de engravidar na primeira relação sexual - o que não é realmente uma surpresa para alguém com 16 anos. Page convence e cativa o púbico com a jornada que empreende depois de saber de sua nova condição.
Mais informações: http://www.junofilme.com.br/
Escrito por Liz às 22:47 0 comentários Marcadores Cinema
Lost tem cura...
Tá, é um post idiota, mas eu gostei...
É um programa que pretende curar o vício no seriado Lost:
Escrito por Liz às 22:11 0 comentários Marcadores TV, Vida Bizarra
Laura Marling - Alas I Cannot Swim
À exceção de ‘singles’ lançados no ano passado, “Alas I Cannot Swim” é o álbum de estréia dessa cantora de apenas 18 anos. Não parece. O repertório do álbum, somado à maturidade que Marling apresenta, faz o ouvinte pensar que está diante de uma veterana.
Abaixo, o videoclipe de “Ghosts”:
Escrito por Liz às 21:56 0 comentários Marcadores Música
Sexta-feira, 14 de Março de 2008
Timequake - Kurt Vonnegut
Com uma mistura de ficção e autobiografia, Kurt Vonnegut cria em "Timequake" uma viagem a um mundo imaginativo, onde personagens reais e fictícios interagem. Kilgore Trout, escritor de ficção científica, inventado por Vonnegut, o ajuda a contar ao leitor sobre um mundo desajustado, chacoalhado por um tremor do tempo que faz com que todos tenham que reviver 10 anos de sua vida no piloto automático - como uma reprise.O livre-arbítrio foi suspenso e tudo será o mesmo até que se passem os 10 anos, situados entre 1991 e 2001, para que seja possível seguir adiante. Permeiam a história, fatos da vida e pensamentos do autor e contos de Trout, escritos antes, durante e depois da reprise.
Como sempre, a crítica social e a costumes está presente na obra. Como não pensar na 'vida no piloto automático' sem fazer uma referência ao controle social, à moda ou a qualquer imposição a que os seres humanos são submetidos - e parecem gostar de se submeter? "Timequake" mostra também um lado positivo de Vonnegut que, de maneira bastante irônica, celebra a vida em seus detalhes mais ínfimos.
Escrito por Liz às 19:48 0 comentários Marcadores Literatura, Resenha
Terça-feira, 11 de Março de 2008
Mozart e urina na porcelana
Quando chegou ao hospital, ou melhor, quando acordou no hospital, sua mente estava tão confusa que não foi capaz de pensar que seria preciso inventar algo para preencher o longo tempo de recuperação que teria pela frente. Dias depois, quando o médico informou de maneira tão direta – por muito pouco, a estupidez do comunicado não provocou um impacto maior que o próprio acidente – que seriam necessários dois meses de internação até que pudesse voltar pra casa e que provavelmente não retornaria a andar, foi que percebeu que aqueles seriam dias realmente intermináveis.
Mas a solução surgiu rapidamente, quase que sem querer, quando, no mesmo dia, o paciente que ocupava a cama ao lado lhe disse para que não “esquecesse” de como era ter pernas. Um comentário que merecia um tapão no pé do ouvido pela falta de sensibilidade. Já não bastava saber que provavelmente não andaria nunca mais? Precisava ainda ter um candango desses para lhe lembrar que, além de não andar, não seria capaz de sentir nada da cintura para baixo? Como resposta, colocou em dúvida a paternidade do infeliz. Não se falaram depois disso.
Da raiva surgiu a idéia: sentir. Sentir era bom. Não apenas as pernas, mas sentir tudo. Pensou nos cinco sentidos e em como eles colorem a vida. Tato, audição, paladar, visão e olfato: tudo tão perfeito! E passou a recordar de sensações prazerosas de sua vida, saboreando detalhes que nunca havia notado. Pensou na sensação da água escorrendo pelo corpo durante uma ducha fria num dia de verão. Arrepio, prazer, alívio. Pensou numa sinfonia de Mozart, qual era mesmo? Era a 35? Tanto faz, era Mozart. Mozart invadindo seus ouvidos e penetrando seu cérebro. Lembrou-se do gosto da manga madura, escorrendo pelos cantos dos lábios e enchendo a boca de um mel que só podia ser divino. Pensou no mar, naquela imensa quantidade de água de um azul intenso. Uma natureza tão furiosa e poderosa quanto bela. Por fim procurou na memória o cheiro da madeira raspada, da madeira nova. Um cheiro que envolve e chega a sufocar de tão intenso.
Percorridos os cinco sentidos, percebeu que, mais que um passatempo, esse era um exercício delicioso. Não iria associar as sensações a nada mais. Não queria lembranças de infância, de situações ou relacionamentos. Não queria sentimentos, só sensações. O frio dos lençóis quando se deita, durante o inverno, até que a cama se esquente com o calor gerado pelo próprio corpo. O barulho da chuva que bate na janela do banheiro. Uma paisagem, um obra de arte, um corpo belo. Nada precisa ter um significado, só precisa ser gostoso e belo. Nem precisa ser tão gostoso e belo, mas que seja do tipo que provoca arrepios.
Passava os dias selecionando e catalogando sensações e à noite punha-se a esmiuçar em cada detalhe a percepção dos sentidos. Criou uma espécie de lista de impressões preferidas que eram desfrutadas sempre antes de adormecer. Mozart estava na lista. Mas a lista não era feita apenas de sensações notáveis. O barulho da urina na porcelana do vaso sanitário estava logo ali, ao lado de Mozart.
Na noite de seu 42º dia de internação, o andar do hospital pegou fogo. O incêndio começou no final do corredor, do lado oposto à escada que se encontrava há alguns metros da porta de seu quarto, por volta das 22hs. Em poucos minutos lençóis, colchões e outros objetos inflamáveis se transformaram em tochas e a fumaça espalhou-se por todo o andar. As pessoas corriam de um lado para o outro numa completa confusão. Em seu quarto havia somente mais uma pessoa, uma senhora internada há alguns dias que se recuperava de uma cirurgia de médio porte e teria alta na manhã seguinte. A velha pulou da cama e saiu correndo. Velha desgraçada, pensou. Na impossibilidade de fazer o mesmo, tentou rolar para fora da cama. A cama possuía uma grade de proteção lateral de aço inoxidável. O esforço era tamanho que chegou a pensar em desistir. Os braços estavam fracos pelo pouco uso – embora o médico sempre insistisse naquelas malditas sessões de fisioterapia – e não ajudavam a sustentar o corpo. Suas pernas eram um verdadeiro peso morto: não apenas não ajudavam, elas atrapalhavam.
Depois de algumas tentativas, finalmente conseguiu se arrastar para os pés da cama e então rolar para fora desta. Caiu no chão esmagando o ombro esquerdo e teve certeza de que tinha quebrado alguma coisa ali dentro. O ombro doía quando esticou o braço, mas arrastou-se até o corredor que agora estava tomado pela fumaça. Tossiu, gemeu e continuou arrastando-se até a escada quando deu de cara com uma bota preta. Eram os bombeiros que acabavam de chegar ao local. Desceu a escada de maca – bem melhor do que ter de rolar escada abaixo, como já estava imaginando que teria de fazer.
Em pouco mais de uma hora os bombeiros controlaram o incêndio. Os pacientes foram remanejados para a ala B do hospital e acomodados em quartos que já estavam ocupados, de modo que foi preciso remanejar móveis para que coubessem todos. No dia seguinte, passado o susto, as pessoas comentavam o incidente com certo divertimento, mas principalmente com alívio.
Sentia-se bem no novo leito, o de número 34. Apesar da queda, não havia quebrado nada, sofrera apenas uma contusão no ombro e o médico garantiu que não se tratava de coisa séria. Pior que a contusão era ter que ouvir que sua queda estabanada da cama ao chão havia sido um ato heróico. As congratulações ou enjoavam ou eram simplesmente percebidas como palavras ordinárias proferidas por pessoas idem.
À noitinha, quando os médicos e as visitas se foram, e quando os outros pacientes finalmente dormiram, começou a se concentrar. Repassou algumas sensações básicas: Mozart e urina na porcelana. Concentrou-se mais um pouco, agora para esquecer a dor no ombro. E então uma torrente de sensações começou a invadir seu corpo. Sentiu um misto de arrepio, prazer e alívio. Sentiu o cheiro de fumaça e de tecidos queimados, ouviu gritos e barulhos de objetos caindo. Mais gritos e cheiro de queimado. Ouviu pessoas pedindo calma, chamando nomes. Viu uma velha correndo, viu a fumaça invadindo o quarto. Sentiu dor nos braços fracos. Sentiu o chão mais quente do que deveria ser o chão de um hospital. Sentiu uma dor aguda no ombro esquerdo. Sentiu gosto de fumaça e os olhos ardendo. A fumaça sufocava, assim como a madeira... Pronto, mais uma categoria de sensações estava devidamente catalogada: incêndio no hospital.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Escrito por Liz às 22:25 2 comentários Marcadores Contos, Prosa e Poesia
Sexta-feira, 7 de Março de 2008
Kate Nash - Made of Bricks
Em resumo, “Made of Bricks” é um ótimo álbum pop. E música pop é isso: popular, agradável, pegajosa. É uma questão de aproveitar o momento. Um momento muito bom para Kate e para nós, fãs do bom pop... (Texto completo no TDM)
Kate Nash é mais uma cantora inglesa legal. Tem a voz parecida com a da Adele. Abaixo um vídeo da Kate Nash cantando a música “Fluorescent Adolescent” do Arctic Monkeys. Ficou muito legal.
Escrito por Liz às 20:33 0 comentários Marcadores Música
Olha aí: publicado no Diário Oficial
Papel daqui, papel dalí, mas saiu no D.O. dessa quarta-feira minha Licença sem Vencimentos.
Escrito por Liz às 20:32 0 comentários Marcadores Desabafo, Vida Bizarra
Quarta-feira, 5 de Março de 2008
O diário do vizinho
03 de março de 2008
8h13m - Levantei com minha delicadeza peculiar e fui ao banheiro. Essa privada deve estar entupida. Foi preciso apertar o botão 9 vezes. Derrubei a tampa da privada. Não sei o que acontece com essa tampa, sempre escapa da minha mão.
8h45m - Depois de tomar café, fui dar aquela tocadinha no meu bongô. É muito bom estar de férias.
9h10m - Resolvi passar um aspirador de pó na sala.
9h35m - Olhei pro meu bongô e ele estava me chamando. Brinquei mais uns minutinhos com ele. Estou ficando bom nisso.
10h40m - Derrubei minha bigorna.
11h23m - Ontem eu tinha colocado o sofá na parede rente à porta. Acho que não ficou bom e resolvi arrastá-lo para a parede oposta.
12h00m - Antes de almoçar resolvi colocar meus tambores na sala, pois tem mais espaço. Um deles saiu rolando pelo piso de madeira.
13h26m - Não deu certo tocar na sala pois o sofá deste lado está atrapalhando. Vou colocar como estava antes.
14h00m - Assim ficou bem melhor. Vou tocar meus tambores um pouco. É realmente muito bom estar de férias.
15h30m - Derrubei minha bigorna outra vez. Vou dar uma saída e comprar uma comidinha pronta no Extra.
17h00m - Está um calor do cão lá fora. Resolvi tirar a calça jeans e vestir um short. Quando tirei a calça, minhas 50 moedas de 10 centavos, que estavam no bolso, rolaram pelo chão. Fiquei bravo e bati a porta do quarto.
17h50m - A raiva passou, acho que vou tocar o bongô mais um pouco. Estou ficando cada vez melhor nisso.
18h38m - Começou a chover de repente e saí correndo para fechar todas as janelas. É engraçado como meu sapato com sola de madeira faz barulho no piso. Na pressa derrubei minha bigorna, again...
20h00m - Levei os tambores de volta pro quarto. Um deles rolou de novo pelo piso. Eu sempre derrubo alguma coisa, deve ser algum tipo de karma.
22h40m - Já jantei e tomei meu banho. Agora vou sair. Estou a fim de beber muito e chegar bem torto, tipo derrubando tudo, sabe?
Escrito por Liz às 22:21 0 comentários Marcadores Prosa e Poesia, Vida Bizarra



